MANOS E MANAS,
Entramos no tempo
da Quaresma, e com ela, nós, integrantes desse abençoado povo cristão, somos
chamados à reflexão deste momento que antecede a Paixão, Morte, e Ressurreição de Jesus Cristo, nosso líder. É tempo de abdicação, penitência, mas
principalmente, de empatia. Sim, empatia! Mais até do que na época natalina, na
qual é comum também despojarmo-nos de nossos pecados e expressar sentimentos de
generosidade e bondade para com o próximo, esse tempo litúrgico remete ao
período no qual Jesus viveu difíceis momentos, nos quais a oração e sua entrega
às vontades do Pai se fizeram intensas. Também nós vivemos turbulentos momentos
em nossas vidas, eventualmente. E, da mesma forma que Cristo, a oração deve ser
nosso elemento-mor de conexão espiritual.
A proximidade da
Páscoa se cristaliza com o advento da Semana
Santa, que culmina a era quaresmal e apresenta marcantes eventos da vida de
Jesus. Não somente a triunfal entrada em Jerusalém, rodeado por ramos de
arvores e acompanhado de seus discípulos, mas a expulsão de mercadores de
dentro do Templo e o confronto com os sacerdotes, representaram significativos
acontecimentos da missão do Messias e expuseram suas maiores virtudes como o
Filho de Deus. Sua caminhada se mostrou árdua, dolorosa, sangrenta... As gotas
de sangue que escorreram de seu corpo no dia de sua morte representavam também
aquelas de suor, que por longos três anos, ele dedicou à evangelização e manifestação
das vontades do Pai. “Eu sou o caminho,
a verdade, e a vida”. Com efeito, ninguém vai a Deus senão por ele. A pregação
foi além dos ensinamentos realizados através das diversas parábolas proferidas
nos anos de sua vida pública: ela expressou a inserção de uma nova doutrina no
mundo antigo, uma cultura de amor ao próximo singular para a época.
A saga de Jesus
na Terra Santa é retratada nos quatro evangelhos canônicos, nas passagens de Mt
21, 1-11; Mc 11, 1-11; Lc 19, 28-44; e Jo 12, 12-19. Em todas elas, a imagem de
um Cristo humilde, chegando a Jerusalém montado em um jumento contrasta com o
louvor da população local, que o saúda com galhos de oliveiras, como um
verdadeiro profeta e mestre de todos os povos, no dia que ficou conhecido
tradicionalmente como Domingo de Ramos. No decorrer daqueles dias, ele
continuou sua trajetória e ainda ensinou muitas coisas aos seus discípulos,
realizando também outros milagres e afrontando as autoridades judaicas.
Ora, Jesus era um
perigoso. Muito mais do que a fama que se debruçava sobre seu nome por todos os
cantos, nele repousava o temor do Império Romano de que o poder fosse perdido
em função do prestígio que aquele carpinteiro nazareno conseguira junto ao povo
da Judeia. Mas a história mostrou que toda a perseguição, tortura e execução de
Jesus apenas serviram como potencializadores de sua influência: o carisma, a
pacificidade, a bondade, e o amor preponderaram sobre a ganância e o ódio de
seus algozes. E hoje, passados mais de dois mil anos de sua morte, a numerosa
legião católica espalhada pelo mundo prova que seu legado não foi, e jamais
será esquecido. Em verdade, o fim de sua missão terrena não sugere o desfecho
de sua trajetória: pelo contrário, revela uma continuidade. A continuidade que
delegou a Pedro ([...] tu és Pedro, e
sobre esta pedra edificarei a minha igreja[...]), confiando ao discípulo
que o negou a prosperidade do Reino dos Céus, e que delega a todos nós, hoje,
através do Movimento de Cursilhos da Cristandade, por exemplo. Sejamos, pois,
expoentes da filosofia de Jesus Cristo, em todos os ambientes. Daquele que se
entregou, de corpo e alma, para promover uma das mais profundas transformações
culturais da história da humanidade.
De fato, a Semana
Santa nos traz o ápice deste plano de amor existente na relação entre Deus e a
humanidade. Que amor é maior do que enviar e entregar o Seu filho ao mundo?
Vê-lo reunir multidões em Seu nome, mas igualmente vê-lo sofrer nas mãos dos
homens... Deus destinou o que tinha de mais precioso, para que ano após ano, lembrássemos do sacrifício feito por seu filho em nosso favor. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que
deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas
tenha a vida eterna (Jo 3, 16). O que temos feito em troca?
Assim, o início
do Tríduo Pascal, na Quinta-Feira Santa, celebra a instituição da Eucaristia, a
confraternização da Última Ceia de Jesus com seus discípulos. O pão, repartido
e distribuído, simboliza o corpo de Cristo que seria entregue nas horas
seguintes. O vinho, igualmente dividido, seu sangue. Sangue inocente que seria
derramado como mais um sinal do perdão que emanava do homem que, ao final, a
todos perdoou. “Pai, perdoa-lhes, pois não
sabem o que estão fazendo”. Tal gesto, de inteira doação, retrata a coragem
com que enfrentou todas as situações de sua vida. Sabia desde o início o que
lhe aconteceria, todo o processo de sofrimento e tentação ao qual estaria
submetido... e em momento algum procurou eximir-se, escapar, mudar o curso de
sua existência.
A Sexta-Feira
Santa, por sua vez, manifesta a Paixão e Morte de Cristo, o momento mais
doloroso para a comunidade cristã e para o filho de Deus, que sentiu na carne a
ignorância e o lado mais sórdido da natureza humana. Humilhado, despojado,
açoitado, Jesus sofreu e pereceu. Ao urrar: “Pai, por que me abandonastes?”, revelou sua fraqueza como homem,
mas sua grandeza de espírito permaneceu intacta para revelar seu amor
imensurável. É nessa condição que o sentimento de empatia se deve fazer
presente: colocarmo-nos no lugar de Cristo, revivendo suas aflições e mazelas,
sentindo sua compaixão e resiliência como forma de superar as adversidades e
encontrar a plenitude da esfera divina.
Da mesma forma,
colocarmo-nos no lugar do irmão que sofre, do pobre que tem fome, daqueles
acometidos por doenças, e todos os demais que enfrentam calvários das mais
variadas espécies. Isso é, pois, ser parte do povo de Deus, revitalizado por
Jesus.
Já o dia do
Sábado é sombrio e desolador. A imagem de um Cristo morto e sepultado nos faz
lembrar toda a escuridão que assola a sociedade e, por vezes, descolore nossas
vidas. São momentos onde a busca por forças se faz necessária e buscamos o
amparo daqueles nos cercam e nos amam. Porém, é também etapa que antecede os
atos de louvor ao Senhor, concluindo o Tríduo Pascal, em preparo para o ponto
máximo da Páscoa.
No Domingo da
Ressureição, aclamamos a vida! Apesar de todo o martírio, é dia de Glória e
alegria. Jesus, marcado pelas chagas de sua crucificação, ressurge do mundo dos
mortos, e antes de juntar-se ao lado direito de Deus, permanece por algum tempo
com os discípulos, mostrando-lhes que a fé precisa ser inabalável, e
incumbindo-lhes também de continuar a missão por ele inaugurada. Não tenhamos o
ceticismo de Tomé, mas acreditemos nos sinais dados por Ele, de que nunca
estamos sozinhos, seja qual for a circunstancia.
Nessa
oportunidade, lembremos, de igual modo, o tema da Campanha da Fraternidade
desse ano, “Fraternidade e Superação da
Violência”, que busca conscientizar a sociedade de que somente a comunhão
de esforços de todos fará com que transformemos a realidade violenta de nosso
país. Dessa forma é que Jesus Cristo conquistou corações: rechaçando a
violência e promovendo a fraternidade e o amor como carros-chefe da comunidade.
“Vós
sois todos irmãos”, diz o lema de 2018, em alusão à mensagem
transmitida por Jesus durante um de seus discursos durante a Semana Santa.
Pois, para que reunimo-nos em torno do altar, encontramo-nos semanalmente e
alavancamos ações, senão com o intuito de conjugar uma aliança de irmandade?
A Igreja nos
chama a refletir profundamente sobre este momento, de modo a purificarmos
nossos corações para compreender o real sentido do sacrifício de Jesus:
conceber uma comunidade pautada na servidão a Deus e na benevolência. O Reino,
corpo uno e indivisível, requer que seus membros fiéis sejam – e ajam – como
uma comum unidade em Cristo. Conforme dito recentemente pelo Papa Francisco,
devemos estar atentos aos falsos profetas, que nos distanciam da verdadeira
felicidade, das virtudes celestiais. Cuidemos para que nossos corações não
esfriem pela falta do amor, da caridade, da oração.
Amor, entrega,
resiliência... o Filho de Deus se fez carne para viver como nós, e elevou-se em
espírito para perpetuar sua presença em nossas mentes e corações. Cultivar a
empatia é seguir o exemplo deixado pelo homem que influenciou o rumo da
História e resignificou os conceitos de amor e perdão. Por tudo isso, a Ele a
glória, a Ele, todo o louvor.
#VivaaVida
Lucas Hahn
Spalding – 51º Cursilho